O quanto jogo GT Sport? Vale a pena?

Já havia um tempo que eu estava querendo falar a respeito disso. Na verdade, preferia produzir um vídeo a cerca do GT Sport, mas isso parece pouco possível com meu tempo disponível – não que eu não refine este “breve” artigo e o faça no futuro. Diante disso, eis aqui uma brevíssima análise do GT Sport e do por que ele não só não mexeu comigo, como esfriou minha admiração pela série como um todo.

Carreira

Iniciei o GT Sport insistindo na premissa dele. De coração. Fiz, a exceção do online, quase que tudo que possível. Subi ao nível 45 dos 50 do jogo, rodei por mais de 12 mil quilômetros dentro dele, finalizei toda a pequena campanha (excluindo desta a Liga GT, que devo ter feito metade das provas), cheguei ao ranking S, degradei intencionalmente ao E para vencer algumas corridas e assim subi ao B. Explorei o que pude do modo fotografia… enfim, posso dizer que realmente dei uma chance real e joguei intensamente o Sport, numa proporção de 90% do tempo no controle e 10% no volante.

Foram 113 dias de login, onde mais da metade destes foi pra jogar. Cheguei a rodar mais de 500km em um único dia apenas, grindando créditos para comprar os carros, mas muitas vezes entrava para fechar os 42km diários e levar um carro pra garagem. O medidor de progresso mostra bem esse envolvimento com o jogo…

…e se eu terminasse aqui, seria uma linda postagem de fã da série. Mas não terminou aqui essa postagem! Esse monte de informação seria realmente incrível se fosse nos primeiros 4 meses do jogo, que foi onde essencialmente eu me debrucei sobre GT Sport e fiz a maior parte desse progresso, fechando pequenos furos com o tempo.

E então, em algum ponto no fim de maio eu desinstalei o jogo do meu PS4. E assim o deixei até a chegada de Le Mans, em julho. Nesse ponto resolvi dar mais uma insistida no jogo, jogando diariamente nem que os 42km, mas estava se tornando repetitivo e abandonei novamente, até o dia que saiu o 787B, em agosto, joguei um único dia algumas voltas com meu carro querido e desde então nunca mais voltei. Posso dizer que desde julho não jogo GT Sport. Se considerar o ritmo, mesmo que o gráfico não mostre, diria que desde o final de janeiro que não efetivamente JOGO o GT Sport.

Tanto que  os recordes de pista gravados no meu perfil datam desse período. De lá pra cá acompanho as postagens, vejo algum vídeo (muito pouco, confesso) e sigo adiante. Então, o que me fez declinar GT Sport?

Onde o Gran Turismo me perdeu?

Originalmente o GT Sport era só online. Poderia tranquilamente ser “Gran Turismo Online”. Tanto que o save do jogo é online, o que significa que daqui uns nem tantos anos esse jogo será esquecido em grande parte porque se tornará impossível jogar ele. Pior que isso, todo esse progresso muito possivelmente será perdido. E por perdido, não falo de algo como GT5 ou GT6, que com a morte do servidor muito conteúdo se perdeu e a dificuldade de percorrer o jogo novamente foi elevada a um patamar herculíneo. Isso porque no GT5 ou 6 você pode simplesmente puxar aquele save do seu pendrive e ser feliz com tudo que havia feito, com sua garagem lotada e tudo mais.

Em GT Sport isso não será possível. Uma vez que desliguem o servidor, aquele carro de 20 milhões que você ralou pra levantar créditos e comprar estará perdido. Para sempre. Porque você dificilmente terá peito para correr novamente sem desligar o PS4 e comprar ele mais uma vez. Então, sim, o sistema de salvamento na nuvem que evita fraudes com save vai aniquilar o GT Sport logo ali adiante e não há nada que possa ser feito hoje a respeito.

O jogo era tão pobre na largada, que na versão 1.0 offline você tem apenas 3 (ou 5, não me recordo certo) corridas pra fazer com uma dúzia de carros emprestados. Somente depois de muito barulho da comunidade do GT que a Polyphony se mexeu e inseriu a Liga GT. E desde então estão alimentando ela a cada atualização com dois ou três campeonatos (ou provas maiores) avulsos. Seria um passo rumo ao GT que gostamos, porém essa liga não lhe dá carros ao completar campeonatos e os créditos recebidos na maioria das provas é bem dizer insignificante para farmar grana virtual para comprar os carros (e a maioria deles custa bastante dinheiro dentro do jogo, de 950 mil a até 20 milhões).

Então, em enorme parte, a Liga GT é apenas um local para matar a vontade de correr contra a máquina. E aí tem algo que me incomoda, porque mexeram novamente na IA. O que se viu nas Betas (fechada e aberta, já que joguei ambas) era uma IA aguerrida, mas por alguma razão a maioria dos carros na versão final do jogo nessas provas são completamente desligados da corrida e estão apenas passeando no circuito, deixando apenas UM ou dois na frente que realmente querem o desafio.

Há, ainda, o prêmio dos 42km diários. Que é ótimo, porque lhe dá um carro novinho. Só que você não pode vender esse carro, caso venha repetido. E como repete. Sério! Comigo, pelo menos, teve tanto repeteco que eu desanimei dos 42km diários… e sem poder vender (e assim ao menos levantar dinheiro para aquele carro que não tá na garagem e que interessa), a sensação é de que rodou 42km pra nada. Somente do Golf foram uns 7 carros iguais. Peugeot perdi a conta. Viper também apareceu bastante, a ponto de receber ele em dias seguidos (sim, o mesmo carro duas vezes seguidas). E naquela roleta tanto faz o carro mais caro ou raro presente, sempre sai o mais barato pra mim. Por essas, a “loteria” do Sport é meio frustrante. Se, pelo menos, ele permitisse dar uma nova girada para tentar a sorte em um outro carro, mas não…

Então, até aqui, o maior problema é o progresso perdido no futuro e a dificuldade em colocar carros na garagem. Antes fosse apenas isso o problema do GT Sport. Ele me perdeu porque trouxe limitações que não deveriam existir. E nisso, acho que ele se perdeu também enquanto série.

Engessado e maquiado?

Uhh, essa parte é complicada. Há razões técnicas envolvidas, mas elas estão ligadas a decisões que a Polyphony fez. E ela o fez para mascarar o jogo, de forma simples e objetiva. A primeira, é o ciclo dia-noite. Desde GT5 tínhamos progresso de tempo. E honestamente acreditei que a chegada ao PS4 e a liberdade de produzir um jogo em um hardware superior, com mais memória e com uma resolução fixa próxima (FullHD) permitiria a produção de um jogo sem essa barreira. Mas isso não aconteceu, porque em busca de um sombreamento mais afinado a iluminação toda do jogo é pré-renderizada.

Assim, a sombra da árvore, o ponto de luz que passa por uma tela e tudo mais já foi processado previamente num computador e está pronto. Só que esse processamento “salvo” ocupa espaço, de modo que o tempo teve que ser fixado para que esses dados fossem usados. Nesse aspecto, embora a qualidade visual prevaleça no GT Sport, GT5 e GT6 eram mais robustos enquanto software. GT5, a nível de processamento via hardware, por sinal. Em tempo real.

Chuva do GT5, em trailer de 2010

Com isso, as mudanças climáticas (e seu progresso desde o dia limpo até o temporal) acabou sendo impossibilitado pela mesma razão. Ou seja, engessou o jogo.

E em apenas duas imagens dá pra entender…
…porque o Gran Turismo 5 foi um GT melhor

Personalização

Ao menos um item posso dizer que melhorou em relação aos anteriores e com as atualizações está cada vez melhor. A personalização de roupa, capacete (incluídas posteriormente) e do carro estão no ponto. Nem precisa mudar mais nada no futuro se não quiserem estragar isso.

Supra com esquema clássico visto no GT1, por vitao0308

Scapes, é melhor?

Outro ponto é o Scapes, a parte de fotografia do GT Sport. O resultado das fotos é sem dúvida incrível. Porém a maior sacada desde GT4 era a liberdade de movimento dentro do jogo, de modo a poder simular sua posição como a de um fotógrafo de verdade, caminhando e buscando o ângulo perfeito. E isso se perdeu completamente, já que o movimento no modo Scapes é extremamente limitado ao zoom e foco de enquadramento conforme aproximado.

Linda foto, mas pensou em ir pro lado um pouco ou abaixar pra fazer a foto? Esqueça. Isso não é possível

O jogo já tem pré-renderizada a iluminação de cada foto, então basicamente você cola um modelo 3D em cima de uma foto e fotografa por cima. Como a iluminação pré-renderizada envolve um posicionamento espacial, há um conjunto de fotos do entorno do ponto a ser fotografado que foi capturado e usado como informação para reflexo, resultando em maior realismo. Mas esses dados são inacessíveis e as fotos possíveis não são 360°.

Você percebe isso quando usa os faróis do carro, já que ele ilumina o chão e outros carros 3D, mas falha por razões óbvias ao iluminar um objeto dentro da imagem, como uma árvore ou outro carro que já estava na foto original. E também porque em ambientes com baixa iluminação e sombras o efeito pode acabar “desgrudando” o modelo 3D da foto de fundo, resultando num incomodo efeito artificial.

Iluminação do carro é consistente, mas a sombra parece menos intensa que a do fundo

Fora o fato de que a sua foto incrível pode ser replicada sem muita complicação pelo seu amigo, buscando diferenciar apenas pelo uso de filtros e algum recorte em cima do original…

Reenquadramento e preenchimento de luz envolvente realçam modelos extremamente detalhados, mas é só

E somente no Scapes se pode apreciar os carros super-premium, já que os modelos usados nas provas são mais simples. Pior que isso, com alguma distância os modelos de outro piloto/IA perdem diversos elementos (como grades) a fim de poupar processamento. O mesmo acontece com itens de cenário, como bandeiras.

Foto de replay de corrida

Por falar em simples, os danos se resumem a amassados leves, riscos e raspões, com direito a leves trincados em lanternas e faróis. E se o Scapes é uma maquiagem, como é de fato o GT Sport e será que é melhor que o GT6 foi, por exemplo? Repare as imagens abaixo e veja se isso soa como GT Sport, jogo de PS4 ou melhor.

Cenários similares ao da era PS2 e PS3, como mostra a foto de yosida00
Reaproveitamento de carros no entorno, apenas removendo a marca e incluindo outros elementos
Fora da proximidade da pista os modelos ficam ainda mais simples, virando balões
A qualidade do modo foto dentro do replay é muito boa…
… só que não faz frente a uma foto do modo Scapes

Dá pra reparar que o Scapes obtém um resultado absurdamente melhor, mas fora de um primeiro plano de pista, ao redor do carro, pouco evoluiu o GT Sport em relação aos anteriores se pensar pelo tempo que se passou e outros jogos que saíram pra concorrer. Veja essas imagens minhas do PS3 só pra comparar:

Captura minha no Gran Turismo 5
Imagem promo do GT5, 2010, atenção à riqueza de detalhes e de como carros premium bastam pro Sport
E se houvesse um detalhamento, mesmo modelos standard como o RUF poderiam estar presentes
Modo foto dentro do replay do Gran Turismo 5 não faz feio

Então, GT Sport é mais bonito, mas foi maquiado para tal, as custas de estar capando recursos e possibilidades. O Scapes, embora resulte em belas imagens (e tenho experiência nisso diante do tanto de fotos que fiz), cerceia a exploração de cenário e carro, limitando o potencial criativo… e nisso, vou destacar, o Gran Turismo 4 fazia melhor em termos de projeto do recurso, mesmo usando também fotos para montar os cenários, havia alguma liberdade de posicionamento e ângulo. Algo que só poderia ser superado pelos cenários 3D totalmente livres no GT5.

Por falar em GT4, estamos falando de 13 anos atrás, são duas gerações distante, mas repare no que já existia como modo fotografia no jogo. Apesar das infinitas limitações, a liberdade de movimento era maior no antigo PS2.

O “Scapes” do GT4, exportando para pendrive em grande formato pra época. Detalhe para a roda do E-type ’61
Zoom e ajuste de altura na roda do E-type.
Locais de fotografia no GT4 eram amplos, e…
…tinham liberdade de posicionamento do carro e fotógrafo…
…bem como foco, altura.

No GT4 o “Scapes” era mais perto de como estar lá, apesar de zoom exagerado mostrar a baixa qualidade dos modelos, você tinha menor limitação na hora de fazer sua foto. Pra quem não conhece, é óbvio que haviam certas limitações, como o espaço por onde se podia se mover para escolher o ângulo ser delimitado em um mini-mapa, já que as fotos que compõem o cenário fecham a visão para o todo até um certo limite, impedindo de andar livremente como no replay ou no modo fotografia do GT5. E ainda assim, era mais livre que o Scapes do GT Sport.

Novidades nem tão novas assim…

Me impressiona o GT Sport trazer de volta o museu, é algo bem bacana para quem curte história automotiva. Mas nem isso dá para dizer que é algo novo na série, porque no GT5 já existia e uma boa parte do conteúdo das marcas já estava presente lá. Por sinal, havia ainda o GT-TV, mas o projeto não vingou. Deveria estar disponível hoje até pra dar acompanhamento a eventos como Goodwood e as provas da FIA.

Museu GT5, cada foto era recebida como card, estes você dava a amigos, recebia ou ganhava em eventos

Pistas?

E pra fechar, é claro que não poderia deixar de falar das pistas. É verdade que a cada atualização tem vindo ou algo todo novo, ou um traçado novo de alguma pista presente, mas infelizmente as pistas amadas de todos – presentes em vários dos GTs anteriores – simplesmente sumiram para dar lugar a novos circuitos. Nada de errado com o novo, mas perder as raízes só reforça que esse é um ótimo jogo de corrida, mas passa longe de ser um Gran Turismo. E é claro que isso não passaria batido pela comunidade…

Pior ainda é o fato de que depois do limitadíssimo Course Maker do GT5 e do fiasco que foi o aplicativo pro GT6 (este já descontinuado), não temos nenhuma chance de criar as pistas originais dentro do jogo no momento.

Considerações finais

A Polyphony nos avisou de como seria diferente o GT Sport em suas tantas campanhas, afirmando que era hora de queimar tudo até o chão, sem colecionar carros, focar em competir. E nessa promessa eles não falharam. O foco é mesmo a competição online, com alvo nas provas da FIA, e todo o restante é apenas um bônus para motivar os velhos jogadores a pelo menos comprar o Gran Turismo. Sobre mim, bom, depois desse passo, no próximo irei esperar com bastante cautela para ver o que vem antes de comprar. No lançamento certamente não o farei, a exemplo de PCars 2 e Assetto Corsa Competizione. Muito possivelmente irei deixar a primeira onda passar e esperar por alguma promoção (que é o que eu faria hoje).

E das perguntas, o quanto jogo GT Sport? Como visto no gráfico lá no começo,  já não jogo mais GT Sport e faz tempo isso…

Vale a pena? Se você não jogou e curte correr online, competir, está no ponto pra você. Gosta de fotografia e de carros, certamente tem um bom leque de opções dentro dele que irão lhe agradar, incluindo opções de câmera no ponto de vista do piloto no replay para fotos em primeira pessoa, os modelos são admiravelmente detalhados, então há muito a explorar. Dá pra passar muitas horas se divertindo, ganhando cultura no museu, experimentando as fotos, correndo, mas apesar disso tudo e de nem ser um mau jogo, Sport ficou aquém do que se esperaria para o peso do nome Gran Turismo.

A concorrência chegou e batendo com cada vez mais força, pode ser que o GT Sport tente levar a franquia Gran Turismo para dentro do mundo e-Sport, mas o preço a ser pago está sendo alto demais junto a base de fãs. É diferente do que acontece com quem curte NFS, Forza, PCars, Assetto Corsa desde a base. O sentimento com o Sport é de algum abandono, e se você se sentir assim, então pode ser a hora de buscar outros horizontes.

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